7 VIESES DE COMPORTAMENTO QUE

NENHUM INVESTIDOR DEVERIA TER

Introdução

Tomar decisões é uma tarefa que se repete diariamente no nosso cotidiano. Desde questões mais simples, como a escolha do que vestir todas as manhãs, até definições mais complexas, que implicam em mudanças importantes na vida. Dito isso, fica a pergunta: em uma tomada de decisão, qual lado tem mais peso: racional ou emocional?

Se a sua resposta foi emocional, isso pode ser positivo para alguns aspectos da vida pessoal. No entanto, quanto o tema é finanças, não é segredo que é preciso estar alerta à influência das emoções no processo de decisão.

Não se trata de uma questão individual. O nosso comportamento reflete o processo de construção do intelecto humano, que se formou ao longo de milhares de anos. Isso significa que o funcionamento do cérebro ainda recebe forte impulso do instinto emocional, que pode ser traduzido na busca pela sobrevivência.

Na prática, as nossas decisões refletem medo, aversão à perda, afastamento do risco. Tudo isso corrobora com a ideia de preservação da espécie. Essas tendências do pensamento foram estudadas e traduzidas em vieses cognitivos.

Separamos 7 vieses de pensamentos tóxicos para investidores. A seguir, serão apresentados detalhes desses comportamentos que praticamos de forma inconsciente. O objetivo é que você, leitor ou leitora, passe a reconhecer a presença desses mecanismos na sua mente.

Afinal, perceber que estamos cometendo equívocos é o primeiro passo para evitá-los. Essa lapidação da mente pode trazer inúmeros benefícios para a vida –  inclusive a melhora da performance nos investimentos. 

Boa leitura!

Índice

Quanto de racionalidade existe nas nossas decisões?

Embora a teoria econômica clássica considere que o ser humano é um agente totalmente racional,  há algum tempo já se sabe que na realidade as coisas são um pouco diferentes.  Na década de 1950, o economista norte-americano Herbert Simon  apresentou o conceito de racionalidade limitada. Em seu entendimento, a maioria das pessoas são parcialmente racionais à medida que atuam por meio de impulsos emocionais em muitas de suas ações.

Esse foi o ponto de partida para uma série de estudos que relacionam  tendências de comportamento e finanças. O trabalho dos economistas e psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky criou bases para que outros pesquisadores estudassem diferentes tipos de vieses que afetam de forma relevante a tomada de decisões financeiras.

Hoje, é aceita a teoria de que o ser humano toma decisões utilizando as chamadas heurísticas – ou  simplificações que induzem a escolhas praticamente de maneira automática.

Andrew W. Lo, professor de finanças do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e autor do livro ‘A non-random walk down Wall Street’ (Uma caminhada não aleatória por Wall Street, sem edição em português), exemplifica como uma forma de heurística o ato de abrir o guarda-roupa e decidir o que vestir com base em apenas um pequeno conjunto de opções – sem considerar todas as peças que não estão à vista. 

As heurísticas, ou atalhos mentais, podem tanto simplificar a avaliação das informações que recebemos, quanto induzir a erros de percepção, avaliação e julgamento que escapam à racionalidade. Em alguns casos, essa irracionalidade pode ser identificada por padrões previsíveis em determinadas circunstâncias. Esses são os chamados vieses comportamentais (ou cognitivos).

Esses vieses de comportamento têm influência direta nas decisões de investimento. A seguir, destacamos os 7 principais mecanismos da mente que podem atrapalhar os investimentos – não só de maneira pontual, como também no médio e longo prazo.

1- Viés de Confirmação

Esse viés (confirmation bias, em inglês) se refere à tendência que a mente humana tem de ignorar as informações que contradigam suas crenças. Em outras palavras, o Viés de Confirmação se traduz na tendência de interpretar os fatos de maneira a confirmar as próprias convicções. Na prática, esse viés contribui para que quando nos deparamos com um pensamento novo, as nossas crenças antigas sigam tendo um peso maior.

Essa dinâmica tem um mecanismo de funcionamento simples: à medida que processar informações incompatíveis com o que pensamos exige esforço, a mente tenta rejeitar as opções que não se encaixam em uma ideia já formada. Isso acontece de maneira inconsciente.

Como isso se aplica aos investimentos?

Se o investidor teve uma experiência negativa com algum tipo de aplicação, por exemplo, a informação que o cérebro recebe reafirmando essa avaliação acaba tendo mais valor que dados estatísticos. Ou seja, ao buscar oportunidades de aportes, a pessoa tende a se olhar com pessimismo as oportunidades ao se aprofundar na busca de informações que corroborem com a sua crença inicial. Dessa maneira, o que ela vai ter como base de decisão é uma visão parcial da questão – que pode se traduzir em decisões equivocadas na seleção do investimento ou no timming para entrar ou sair de uma operação.

O que fazer para evitar o Viés de Confirmação?

• Perceba quais situações são mais propensas a entrada nesse viés. Uma das maneiras de realizar esse exercício é avaliar se a mente está dando preferência a ideias que confirmam percepções pré-existentes. 

• Busque conhecimento e compare as informações adquiridas em busca de um consenso. Essa é uma poderosa ferramenta para ajudar a evitar esse viés. Saber pouco induz a mente a priorizar dados que podem não refletir a realidade. 

• Compartilhe informações com pessoas que têm pontos de vista diferentes. Isso contribui para abrir possibilidades de questionamentos que ajudam o cérebro a se aproximar de uma decisão racional.

• Conte com o auxílio de um assessor de investimento no momento de tomar decisões financeiras importantes.

2- Viés de ancoragem

investidores de fundos renda fixa

Esse viés (denominado anchoring, em Inglês) se refere ao ato de considerar em demasia uma informação pré-concebida no momento de tomar uma decisão ou mapear estimativas.

Como a mente precisa de um ponto de referência para basear julgamentos, por vezes ela pode avaliar de maneira imprecisa ideias ou referências já elaboradas.  

Como isso se aplica aos investimentos?

A tendência à ancoragem pode fazer com que, por exemplo, investidores marquem uma determinada âncora mental para comprar ou vender uma ação. Essa âncora pode ser um preço a ser atingido em determinada data, ou outro patamar de preço previsto ou indicado por analistas. Com essa âncora formada, os investidores tendem a dar pouco valor a novas informações.

Na prática, esse comportamento pode resultar na manutenção de uma posição perdedora motivada pela disposição de recuperar o preço antigo –  mesmo que indicadores apontem para outra direção.

O que fazer para evitar o Viés de Ancoragem?

• Evite tomar decisões por impulso. Busque sempre bases sólidas de informação para decidir. Do contrário, a mente tende a buscar referências previamente arquivadas que nem sempre são assertivas.

• Avalie e reavalie valores que dão referência a um investimento. Esse processo pode ser feito verificando, por exemplo, os fundamentos de uma empresa por meio de relatórios de analistas.

• Busque acompanhar os movimentos do mercado. Dessa maneira, é possível adquirir conhecimento para contextualizar e/ou julgar informações contidas em notícias ou relatórios.

• Questione as suas premissas. Essa auto-indagação contribui para definir se determinado pensamento é relevante ou só reflete uma lacuna de informação.

3- Falácia do Jogador

Também conhecido como Falácia do Apostador (gambler´s fallacy, em Inglês), esse viés reflete a crença incoerente de que um evento aleatório pode ser influenciado por outros eventos independentes.

Como exemplo, vamos considerar um jogo de “cara ou coroa”. No momento em que  a face “cara” saiu muitas vezes, o jogador pode pode acreditar que isso torna maior do que 50% a probabilidade de sair “coroa” no próximo lançamento.

Como isso se aplica aos investimentos?

Ao acompanhar a alta seguida de determinada ação negociada na Bolsa de Valores, o investidor pode se inclinar a vender os papéis para se proteger da possibilidade de o ativo passar por uma correção. Isso acontece de maneira inconsciente – mesmo que não haja uma explicação racional que indique tal movimento.

Na outra ponta, um investidor pode fazer o contrário: ao longo de uma sequência de desvalorizações,  pode se manter comprado no papel – e não buscar informações que justifiquem a queda. A decisão, nesse caso, estaria apoiada somente na crença de que irá acontecer um processo aleatório que inverterá o movimento de queda, levando à recuperação do preço do ativo.

O que fazer para evitar a Falácia do Jogador?

• Considere sempre a máxima: “ganhos passados não representam ganhos futuros”. As decisões de investimento devem ser baseadas em fundamentos, e não em impressões.

• Acompanhe de perto as informações das empresas (ou do ativo) antes e depois da realização do aporte. Isso ajuda a identificar o motivo do movimento de queda ou subida do preço.

• Estude conceitos de probabilidade. A dedicação ao tema tende a trazer noções básicas: em eventos independentes, a chance de observar um resultado específico é exatamente a mesma – não importa qual tenha sido o último resultado.

4- Aversão à Perda

Denominada loss aversion, em Inglês, esse viés reflete a tendência das pessoas serem mais afetadas pelas perdas do que pelos os ganhos. Na prática, a satisfação em obter determinado ganho é menor do que o sofrimento por uma perda equivalente.

Como isso se aplica aos investimentos?

Tal dinâmica pode se traduzir no desperdício de boas oportunidades de investimento. Ao mesmo tempo, tende a deixar o investidor mais exposto a potenciais armadilhas que se apresentam como “grandes oportunidades”.

Outro caminho direcionado pela Aversão à Perda é motivar a venda de ativos de maneira precipitada – atitude motivada pelo receio de perder o montante já ganho na operação.

O que fazer para evitar a Aversão à Perda?

• Escolha uma estratégia de investimentos e mantenha o foco para seguir o plano inicial, respeitando sempre os limites de eventuais prejuízos. Isso  diminui a possibilidade de tomar decisões precipitadas.

• Diversifique a carteira. À medida que um grupo de ativos pode estar gerando perdas, outro grupo pode valorizar. Além de equilibrar o portfólio, a dinâmica contribui para amenizar a ansiedade ao diminuir os solavancos do sobe e desce dos preços.

• Avalie de maneira recorrente as origens de determinada percepção antes de tomar qualquer decisão financeira: a pergunta a ser feita é: essa percepção está ligada a fatos e dados ou simplesmente reflete o medo de perder?

• Evite checar a cotação dos ativos a todo momento. Isso pode aumentar a ansiedade ao enviar ao cérebro muitas vezes a necessidade de tomar alguma decisão. Um plano de investimentos assertivo leva em consideração também (e principalmente) o longo prazo.

5- Autoconfiança Excessiva

Denominado overconfidence, em Inglês, esse viés induz à confiança excessiva nos próprios conhecimentos e opiniões. As pessoas também tendem a superestimar sua contribuição pessoal para a tomada de decisão, elevando a crença de que sempre fazem escolhas certas. A pessoa com Autoconfiança Excessiva atribui erros a fatores externos.

Tal comportamento reflete a convicção de que as informações que a mente tem são  suficientes para possibilitar decisões assertivas. Isso tende a gerar nas pessoas a impressão de que elas possuem habilidades para controlar eventos externos e prever riscos.

O viés da Autoconfiança Excessiva se relaciona diretamente ao viés de Confirmação (1), no qual a pessoa tende a interpretar os fatos de maneira a confirmar as próprias convicções.

Como isso se aplica aos investimentos?

O excesso de autoconfiança leva o investidor a superestimar suas habilidades perceptivas, e acreditar que elas podem “medir” o mercado. Essa visão é criada a partir de crenças, e não tem base em dados. Tal cenário eleva a chance de a pessoa identificar padrão em coisas aleatórias.

Essa percepção pode ganhar ainda mais força quando o investidor conquista sucesso em algum aporte. Diante da euforia, a pessoa tende a acreditar – para além do racional – em sua própria capacidade.

Ao acreditar nessa superioridade em relação à maioria a pessoa pode se convencer que consegue identificar as melhores oportunidades. Esse comportamento estimula a realização de um número maior de aportes, o que pode atrapalhar o plano de investimento em diversos aspectos: desde o aumento do custo de transações até a uma elevação exacerbada da exposição ao risco.

O que fazer para evitar a Autoconfiança Excessiva?

• Avaliar sempre – de maneira idônea – os argumentos que a mente se apoia para justificar as decisões. Ajuda nesse processo discutir a questão com pessoas de confiança ou com o assessor de investimento.

• Estude – no caso de lucro – o caminho que resultou no alcance da rentabilidade. Nesse processo, o importante é entender se o resultado positivo é reflexo de uma estratégia assertiva ou de fatores externos que impulsionaram o ativo.

• Acompanhe os custos de transação ao calcular o impacto dos gastos com taxas e impostos no retorno dos investimentos. Se pergunte sobre a possibilidade de buscar o mesmo objetivo com um número menor de operações.

6- Lacunas de Empatia

Denominado Lacunas de Empatia Quente-Frio (hot-cold empathy gaps, em inglês), esse viés aponta que a capacidade de interpretar acontecimentos está ligada de forma profunda com determinado estado emocional.

Quando a mente funciona sob influência de certo conjunto de emoções, fica mais difícil que o pensamento se forme sob um ponto de vista diferente. Na prática, no momento em que a tristeza predomina, por exemplo, é difícil exercitar como seria a percepção para o mesmo tema em um estado de alegria.

A Lacuna de Empatia pode fazer com que as pessoas subestimem a influência do próprio estado emocional no momento de tomar decisões. Como consequência, aumenta a chance de arrependimento das escolhas. A intensidade dessas emoções é classificada em estados “quente” e “frio”. Sendo o estado frio isento de fortes emoções e o quente permeado delas.

Como isso se aplica aos investimentos?

Se no momento de tomar algumas decisões em relação aos investimentos, a pessoa estiver com a cabeça quente (permeada por fortes emoções), isso pode contribuir para a entrada em um estado de desespero. Na prática, esse momento pode refletir na venda de ativos antes da hora, o que tende a prejudicar a estratégia e gerar prejuízos.

O que fazer para evitar a Lacuna de Empatia?

• Comprometa-se em adiar decisões financeiras em momentos de crise. Sempre que reconhecer estar em algum estado emocional “forte”, evite mexer nos investimentos.

• Estabeleça algum trâmite para confirmar decisões relativas à carteira de investimentos. Pode ser prazos de carência aumentados ou um processo  burocrático que possa servir de ferramenta para adiar alguma decisão final.

• Crie uma rotina para acompanhar os movimentos da carteira. Isso evita que em um momento de fragilidade, a percepção de que houve uma mudança brusca no extrato gere a necessidade de uma tomada de decisão. 

7 - Efeito de Enquadramento

Denominado framing, em Inglês, esse viés reflete a maneira como a mente formula as informações. A tomada de decisão é afetada por esse “enquadramento”.

Em outras palavras, trata-se do ponto de vista sobre uma questão. Pesquisas apontam que as pessoas tendem a ser avessas ao risco quando se trata de ganhos, então lembramos da frase “mais vale um pássaro na mão que dois voando”. Por outro lado, são propensas a correr riscos a fim de evitar ou compensar perdas. Essas percepções dependem da maneira como o cérebro vai organizar e entender determinada questão. É isso que gera o viés.

Como isso se aplica aos investimentos?

Na prática, se um conjunto de alternativas for enquadrada em termos de ganhos, é possível que uma pessoa escolha um caminho menos vantajoso em operações financeiras para fugir do risco.

Ou, em um esforço para compensar perdas, a pessoa pode elevar a exposição ao risco para além do que tinha planejado inicialmente.

O que fazer para evitar o Efeito de Enquadramento?

• Questione as recomendações de investimento. O ideal é comparar a opinião de mais de um especialista, especialmente se os profissionais tiverem argumentos diferentes.

• Busque ter uma visão global do investimento. Isso significa avaliar não só a  rentabilidade, mas também considerar outros custos e riscos envolvidos, como taxas, impostos, penalidades para resgate antecipado, entre outras.

• Avalie com cuidado as informações de divulgação da oportunidade de investimento. Busque identificar enquadramentos tendenciosos que podem influenciar a decisão.

Os assessores de investimento são profissionais qualificados para lidar tanto com questões financeiras, quanto com o lado psicológico envolvido no planejamento e administração das carteiras. Por isso, vale sempre contar com um parceiro para discutir também as questões de comportamento psicológico. Isso tende a lapidar a mente e otimizar o plano de investimentos.

Texto: Priscilla Arroyo

Diagramação: Gabriela França

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